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sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Hebraico: períodos de estratificação

Hebraico: períodos de estratificação (LANGER)[1]

Períodos

Características

Hebraico

Bíblico

1) O hebraico bíblico antigo: refletido na poesia bíblica. Nos poemas aparecem palavras incomuns que eram comuns em outras línguas semíticas.

2) O hebraico da prosa bíblica: que constitui a maior parte dos relatos bíblicos. O vocabulário reflete um povo de pastores e agricultores – classificação de espinhos, poços, etc. – são 8.000 palavras sendo que 2.000 aparecem apenas uma vez.

3) O hebraico bíblico tardio: que apresenta influência do aramaico.

4) O hebraico bíblico pós-exílio: marca uma nova era no desenvolvimento da língua. De 538 a.E.C., com Ciro, até 332 a.E.C., com Alexandre, os judeus viveram numa situação multilíngüe. O aramaico era usado como língua de comunicação com o mundo externo e também como língua escrita em certos textos literários. O hebraico por sua vez era falado pelo menos no sul da Palestina. Mais tarde, o hebraico passou a ser escrito e deu origem ao hebraico rabínico

5) Rolos do Mar Morto (séc. II a.E.C. até séc. II): várias teorias da existência de diferentes dialetos usados simultaneamente.

Hebraico

Rabínico

O hebraico rabínico foi transmitido pela Mishná (compilada e editada no ano 200) e pela literatura produzida pelos tanaístas (do séc. II até o início do séc. III) – e o hebraico do Talmud, e da literatura produzida pelos amoraítas (do séc. III até o séc. V.

Os estudiosos acreditam que quando a Mishná foi compilada, sua língua não era mais usada no norte de Israel, continuando, contudo, a ser falada por mais algumas gerações na região do sul. Portanto, o hebraico rabínico refletiria um dialeto hebraico falado durante o período do 2º Templo. Os livros bíblicos datados do final do período do 1º Templo e do 2º Templo em geral revelam fenômenos lingüísticos comuns à língua rabínica.

Três fatores colaboraram para a modificação do hebraico bíblico:

1) a influência do aramaico durante o período do exílio e da Babilônia;

2) as transformações naturais de uma língua em uso, ao longo dos anos;

3) a existência de dialetos distintos.

Diferenças entre o hebraico bíblico e o hebraico rabínico: no uso de certas consoantes, no uso de algumas formas verbais e, quanto ao léxico, modificações semânticas de certas palavras herdadas do texto bíblico. A semelhança morfológica une esses dois períodos do hebraico. Toda forma presente no hebraico rabínico já apareceu na linguagem bíblica.

O hebraico da Mishná não é homogêneo.

Exemplos:

1) as partes mais arcaicas (datadas do final do período do 1º Templo), apresentam uma aproximidade maior com a linguagem bíblica, do que as mais tardias.

2) a língua dos manuscritos difere em alguns momentos da língua dos impressos. Provavelmente os copistas realizaram mudanças, o que talvez seja indício de que a língua dos impressos tenha sido uma tradição antiga independente.

O hebraico rabínico sempre esteve em contato com o aramaico e há lingüistas que consideram a hipótese de os judeus, naquele período, terem sido bilíngües, pois a língua dos sábios absorveu fundamentos da gramática e do vocabulário do aramaico. Também o grego e o latim deixaram marcas no hebraico rabínico, mas apenas quanto ao vocabulário.

Hebraico Medieval

O Hebraico rabínico deixou de ser usado como língua falada por volta do final do séc.II, sobrevivendo como língua literária ao lado do aramaico. A transição do hebraico rabínico para o hebraico medieval se deu durante o século VI e VII com o domínio árabe indo até séc. XVIII ou XIX. Com os Paitanim (poemas litúrgicos) surge na Palestina o primeiro movimento de revitalização do hebraico. Os paitanim empregavam uma linguagem permeada de alusões bíblicas e neologismos.

Neste período temos a redação de midrashim e o início da atividade massorética. Esta revitalização limita-se apenas à linguagem literária.

No séc. V, observamos outro movimento de revitalização do hebraico, que partiu do oriente e alcançou o ocidente islâmico, em particular a Andaluzia.

O avanço da gramática árabe despertou o interesse pelos estudos filológicos do hebraico, contribuindo para este ressurgimento lingüístico.

O hebraico medieval não é simplesmente uma continuação derivativa artificial do gênero piyut. Os judeus de Andaluzia desenvolveram a poesia secular e a prosa. Surgiram estudos filológicos em hebraico e árabe: voltaram-se para o estudo da lingüística do hebraico bíblico e do hebraico rabínico, transformavam o sentido de palavras antigas e criavam por analogia novas palavras, expandiram formas gramaticais que davam conta das necessidades de expressão e introduziam elementos das línguas que os cercavam (árabe, latim e alemão).

Nesse período, os estudos lingüísticos estavam voltados para a gramática do hebraico bíblico e não para o incentivo do uso do hebraico como língua viva.

Os judeus neste período consideravam o hebraico de forma diferenciada:

1) em terras cristãs, onde o idioma era o romance, preferiam o hebraico para a criação literária (estilo pobre, morfologia dúbia e sintaxe questionável);

2) sob o domínio islâmico optavam pelo hebraico para poesia e árabe para a prosa;

3) muitos, entre eles Maimônides, lamentavam o abandono do uso do hebraico;

4) os puristas punham em dúvida a legitimidade do hebraico rabínico, voltando-se para o hebraico bíblico.

O hebraico medieval pode ser dividido em dois períodos:

1) medieval anterior: desde a consagração do Talmud até o séc. X. Esta língua reflete-se na obra dos paitanim, que se caracteriza pelos neologismos. Sua linguagem é considerada como continuação do hebraico rabínico da Palestina, usado como oração pública. Há uma mescla de novas formas, com a predominância da linguagem bíblica nas criações de cunho religioso festivo, enquanto nos midrashim que serviram de base para os poemas litúrgicos é a linguagem rabínica que está presente.

2) medieval posterior:

2.1 – A poesia hebraica de Saadia Gaon, primeira a ser escrita na Babilônia no século X, marca ressurgimento do hebraico deste período.

2.2 – Na metade do séc. X, os judeus da Espanha islâmica desfrutaram de um período de desenvolvimento cultural que contribuiu para o ressurgimento do hebraico, ao menos como expressão literária. O poeta da corte, uma nova figura da sociedade judaica, era um conhecedor das técnicas e temas da poesia árabe e do gosto contemporâneo tanto quanto da linguagem bíblica. O poeta por ser um filólogo contribuiu para imprimir purismo, correção gramatical e estilo bíblico à poesia.

2.3 - A maior parte da prosa medieval é da Espanha e da Província e tem uma forte influência da língua e da literatura árabe. Ocorre uma variedade lingüística entre os textos desta época: podemos distinguir trabalhos originais em hebraico e traduções para o hebraico de textos escritos em árabe e latim.

Observamos uma variação lingüística entre os textos escritos no domínio muçulmano que apresentam influência árabe, e aqueles escritos em territórios cristãos.

Cada gênero literário, trabalhos narrativos, composições filosóficas, filológicas ou de caráter místico e outros traz consigo variações lingüísticas.

No restante da Europa, a prosa era escrita em hebraico rabínico, no entanto, são encontrados elementos do hebraico bíblico, do aramaico, do árabe e também do francês, do alemão e do iídiche.

Hebraico Moderno / Hebraico Israelense

O período de transição do hebraico medieval para o hebraico moderno ou hebraico israelense foi lento e durou várias décadas:

1) o hebraico continuou sendo usado na escrita;

2) foram feitas algumas tentativas de adaptá-lo às necessidades modernas.

A partir do séc. XVIII surgiram jornais e revistas, editados pela “Sociedade Amigos da Língua Hebraica”, que recebiam contribuições de membros da Haskalá.

Na segunda metade do séc. XVIII, com a Haskalá, o hebraico teve um grande impacto. Este movimento cultural tentou restaurar o uso do hebraico como língua viva, purificando-a e promovendo o seu uso correto. Aumentavam sua força de expressão. Mostravam-se avessos aos termos calcados do alemão e de outras línguas ocidentais.

Uma nova era tem início com a publicação do artigo “Uma questão ardente” de autoria de Ben Yehuda.

Para Ben Yehuda, o “hebraico língua viva” era o aspecto mais importante do plano de assentamento da Palestina.

1881: Ben Yehuda instala-se na Palestina com a sua família e dá início à empreitada do ressurgimento do hebraico dentro de sua própria família.

Desafio: Desenvolver um vocabulário apropriado incorporando o material da literatura antiga e medieval e eventualmente criando novas palavras para serem incluídas no Thesaurus.

A falta de uma língua nacional na região auxiliou a empreitada de Ben Yehuda. Muitos professores abraçaram a causa e passaram a ensinar o hebraico em hebraico.

1890: Criação de uma comissão de língua que passou a se ocupar da criação de novas palavras.

1) foram empregados métodos específicos para adaptar a língua às necessidades diárias;

2) retorno ao material científico e técnico produzido pelas traduções medievais;

3) introdução de termos árabes na base de aproximação semântica hebraica, com sua adaptação nos padrões hebraicos;

4) Mishná, Talmud, Midrashim: adaptações de todas as expressões hebraicas e aramaicas, gregas e latinas, potencialmente úteis.

5) raízes do hebraico bíblico foram exploradas para derivação de vocabulário adicional de acordo com os padrões morfológicos.

1922: Sob o Mandato Britânico, o hebraico foi aceito como uma das línguas oficiais da Palestina – fato que marcou um novo estágio do uso da língua.

O estabelecimento da Universidade Hebraica de Jerusalém contribuiu para aumentar consideravelmente o vocabulário técnico da nova língua.

1948: Com a criação do Estado de Israel Moderno, o hebraico consolidou-se como a língua principal dom país e passou a desenvolver as próprias características.

1953: Surgimento da Academia de Língua Hebraica.

O ressurgimento do hebraico como língua falada desde o início foi associada com uma série de medidas normativas para torná-la uma língua intacta:

1) o hebraico bíblico foi aceito como base para a nova língua e um número de arcaísmos e estruturas gramaticais foram omitidas;

2) o hebraico rabínico teve alguns componentes incorporados; o sistema Tiberiense de escrita e de pronúncia foi aceito;

3) o sistema sintático do hebraico bíblico foi o aspecto menos apropriado às necessidades modernas e a preferência foi dada para a sintaxe do hebraico rabínico, fortemente influenciada por línguas ocidentais.

4) vocabulário: houve uma grande abertura para todos os estágios anteriores do hebraico e foram aceitos itens do aramaico, do árabe e de línguas judaicas não semíticas, persistindo o uso dos padrões morfológicos.

Por volta de 1930: importante controvérsia acerca da natureza do hebraico israelense:

1) alguns especialistas reclamavam que a coexistência do hebraico bíblico com o hebraico rabínico traria desordens estruturais, pois cada linguagem estaria associada a um meio diferente de expressar o mesmo conteúdo;

2) um novo sistema surgiu e nele por vezes há dois níveis diferentes de estilo, com elementos do hebraico bíblico e do hebraico rabínico usados uns ao lado do outro.

Há mais de quarenta anos, o hebraico israelense tornou-se objeto de questionamento lingüístico e estudos acadêmicos:

1) alguns lingüistas enfatizam a indo-europeização do hebraico apesar do fato de que a maior parte de seu componente básico é originário do hebraico bíblico e do hebraico rabínico;

2) para estes estudiosos, mesmo que o hebraico israelense ainda pareça ser uma língua semítica, suas relações semânticas são indo-européias e sua abordagem conceitual é ocidental. O hebraico durante a sua revitalização recebeu influência das línguas eslavas, do alemão, do inglês, do francês, do espanhol que são línguas maternas de muitos judeus que vivem em Israel.

Pronúncia: Judeus oriundos das mais diversas comunidades chegaram a Israel com as mais diversas pronúncias, destacando-se os três grupos principais: iemenita, sefaradita e ashquenazita.

Sentiu-se a necessidade de uniformizar a pronúncia e a academia de língua decidiu pela pronúncia sefaradita mais próxima do caráter original semítico da língua.

A pronúncia atual do hebraico israelense é um compromisso mais ou menos formal e espontâneo dentre as tendências competentes.

O hebraico israelense não é o resultado de uma evolução natural, mas de um processo inédito no desenvolvimento de uma língua. Representa o elo de uma corrente conectada durante 3000 anos às passagens bíblicas mais remotas.



[1] Adaptado de: LANGER, Eliana Rosa. Hebraico: uma língua e vários períodos de estratificação. IN: Cadernos de Língua e Literatura Hebraica. Publicação do Curso de Pós-Graduação de Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas – FFLCH/USP. São Paulo: Pólo, 2004. p.124-139.

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