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sábado, 19 de abril de 2008

O Hebraico: a língua oficial do Estado de Israel

O HEBRAICO

A língua oficial do Estado de Israel


Texto de Rifka Berezin*, para
O ESTADO DE SÃO PAULO - Especial,
em 13 de março de 2000

O hebraico é a língua oficial do Estado de Israel, desde 1948, mas já era falado na região pelos pioneiros sionistas* desde o final do século passado. O hebraico moderno ou israelense, como também é denominado, foi renovado após um lapso de 1.700 anos de língua escrita e está fundamentado na concepção da unidade da língua hebraica e continuidade dos seus diferentes períodos literários e históricos.

Ele não é resultado de uma evolução orgânica, onde o velho é substituído pelo novo, como é usual no desenvolvimento natural das línguas faladas. No hebraico moderno, os diferentes estratos históricos dessa língua encontram-se lado a lado.

O falante israelense pode empregar numa mesma oração vocábulos renovados, assim como os provenientes do hebraico bíblico, do talmúdico (segunda fase depois da Bíblia) e medieval com a maior naturalidade: há uma organização sincrônica de todo o vocabulário existente em todas as fontes judaicas escritas.

Também é pouco comum nos estudos lingüísticos a transformação de uma língua escrita para uma língua oral, como é o caso do hebraico.

O hebraico é uma língua antiga e pertence ao ramo das línguas semíticas**. Desenvolveu-se na região do Oriente Médio durante a metade do segundo milênio a.C., na Terra de Canaã. Essa língua também foi chamada na Bíblia de Yehudit (2º Livro dos Reis 18:26,28).

No período helenístico, os escritores referiam-se a ela pelo termo grego Hebraios (Flávio Josefo) e, sob o império romano, era conhecida como ivrit (hebraico).

Quanto à sua estrutura, o hebraico é basicamente triconsonantal, isto é, a maior parte de seus radicais e raízes é composta por três consoantes. O seu alfabeto é de 22 consoantes, escritas da direita para a esquerda.

Originalmente, não tinha vogais, mas algumas letras funcionavam como auxiliares da leitura, as matres lectionis ou, em hebraico, as amot keriá, indicando as vogais I, O e U. As demais vogais não tinham representação e a falta da vocalização dificultava muito a leitura dos textos hebraicos.

Foi na segunda metade do primeiro milênio da nossa era que se deu a invenção de vários sistemas de vocalização, sendo o Tiberiano, atribuído a Ben Asher, da Escola de Gramáticos de Tiberíades, o utilizado até hoje. Foi a invenção dos signos vocálicos que tornou cada judeu apto para ler o texto bíblico.

O hebraico persistiu como língua escrita por mais de 3 mil anos. Como língua falada, sobreviveu em muitas situações diferentes, seguindo o complicado curso histórico do povo judeu.

O hebraico foi falado em Israel até a destruição do Segundo Templo de Jerusalém, no ano 70 d.C. e há comprovações (as cartas de Bar Cokhbá, no Museu de Israel), de que, mesmo após o grande exílio, as comunidades judaicas que permaneceram em várias regiões da Terra de Israel continuaram a utilizar o hebraico, tanto na comunicação oral como na escrita, até o ano 200 de nossa era.

Após a grande dispersão, o povo judeu passou a viver em diversos países e a falar diferentes idiomas, mas o hebraico era continuamente utilizado nas práticas religiosas e na criação literária, poética, litúrgica e religiosa.

Durante a Idade Média, essa língua servia de comunicação entre os rabinos de diferentes países, que trocavam correspondência sobre questões religiosas, constituindo a vasta literatura de Perguntas e Respostas denominada de Responsa.

Nessa literatura, comparece a primeira consulta das Américas, da comunidade judaica de Pernambuco, no ano de 1637, sobre uma questão litúrgica. Os brasileiros perguntavam se podiam transferir as orações pela chuva, de outubro (Sukot), período da colheita em Pernambuco, para outra data.

O rabino de Salônica opinou pela suspensão dessas orações, já que essas visam a trazer bênçãos e não danos, como seria o caso.

O ideal da transformação da velha língua hebraica numa língua para uso corrente e atual surgiu com os iniciadores do movimento iluminista judaico, a Haskalá, no século 18, quando teve início a pesquisa no sentido de um aproveitamento do patrimônio vocabular de todas as épocas e adaptações de formas arcaicas às novas necessidades.

Foi o escritor satírico Mendele Mokher Sefarim (Schalom Yaakov Abramovitch, 1853-1917) quem conseguiu chegar a uma síntese e lançou as bases para um estilo do hebraico moderno.

Por outro lado, o renascimento da fala popular deve-se em grande parte a Eliezer ben Yehudá (1858-1922), que provou ser possível empregar o hebraico em todos os setores da vida prática, desde que usado com persistência e coerência.

Mas o maior papel na divulgação e na transformação do hebraico numa fala popular foi o dos professores que, desde o início do século, impuseram o hebraico como língua de ensino de todas as disciplinas nas escolas de Israel.

Paralelamente, iniciou-se, no Comitê de Língua Hebraica, fundado em Israel, em 1890, um trabalho de organizado de renovação e ampliação do léxico, criando novos vocábulos, incorporados pelos falantes do hebraico daquele tempo.

Foi também esse comitê que decidiu pela adoção da pronúncia sefardita de hebraico, porque a achavam mais bela, mais suave e que lembraria melhor a fala oriental e, talvez, a fala dos antigos hebreus.

Concluindo, o hebraico antigo transformou-se numa língua moderna, corrente e natural, mantendo, entretanto, as características da linguagem bíblica e de língua semítica. O hebraico, língua clássica, altamente poética, e que serviu durante 17 séculos somente à comunicação escrita e às práticas religiosas, expressa plenamente as necessidades de uma sociedade moderna.

Foi concluído o processo de "renascimento" da língua e está em curso o processo de "desenvolvimento" natural do hebraico israelense, tanto na fala popular como na criação da nova literatura hebraica no Estado de Israel.

*Rifka Berezin é professora titular de Língua e Literatura Hebraica da USP, autora do Dicionário Hebraico-Português, Edusp, 1995.

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